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Devaneios.com


Viver, amar ou blogar?

Você acha que este blog morreu?..Você ta certo… morreu mesmo… mas eu posso ressuscitá-lo quando eu quiser, quero dizer, quando eu puder.

Sim, ou você acha que e assim, eu sento e escrevo quando bem entendo? Não, eu descobri que eu estava errado sobre muitas coisas, provavelmente estou errado agora e jamais estarei certo.

 

No ultimo post, meses atrás eu tinha esta ânsia de viver, de sair por ai, de ir pedalando ate o México. Pois bem, eu fui pro México, de verdade, mas não pedalando, fui navegando. Eu decidi que estava na hora de viver, de sair de trás desta folha em branco e escrever minha própria historia, de cruzar caminhos com personagens de verdade.

Naquela época eu costumava reclamar que quando se vive a vida, não se tem tempo para escrever, que e preciso ficar quieto, imaginando o mundo para se escrever bem. Eu estava correto ao menos nisso! O fato e que se vivo aventuras intensas, não escrevo, estou ocupado vivendo, e que se não vivo nada sento na frente da televisão e não escrevo nada também. Conclui que e necessário um meio termo, e necessária a experiência de uma aventura para se imaginar outros caminhos, outros roteiros e outras realidades, é preciso viver sim, mas ter tempo também de ponderar estas experiências.

 

Nestes meses em que estive ausente eu vivi, fui de verdade para o México, e fui também para as Bahamas, Ilhas Caynman, Jamaica, rodei o mundo. Nesses meses conheci gente de vários lugares, bebi coisas que não sei o nome com caras que não tem nada haver comigo, fiz sexo com mulheres que não amei e de quem não lembro o nome, e fiz amor com uma Russa que me amou, choramos os dois na despedida sem saber se jamais nos veríamos novamente. Experimentei comidas diferentes, aprendi coisas novas, eu vivi minha vida. E sabe quantas linhas escrevi? Nenhuma. Somente agora que tive tempo de ponderar toda esta experiência e que decidi escrever. Este Blog não vai ser reativado ainda. Antes tenho que viver mais um pouco, terminar minha volta ao mundo. Amar outras mulheres, beber outras coisas, ver outros lugares, viver outras aventuras enfim.

 

Agora olho o por do sol da popa de um navio, ou pedalando nas montanhas do interior, e fico matutando: que devo fazer uma vez acabada esta experiência? E eu realmente não sei, não sei o que quero da vida. Sei o que não quero, mas ainda tenho que decidir como seguir em frente, qual será meu novo projeto, qual profissão devo seguir. Logo terei 30 anos, passa rápido, mas ainda sinto que tenho 17, Ainda não encontrei a profissão que amo, continuo amando mulheres que não podem estar comigo, por qualquer motivo, continuo com esta ânsia de escrever sobre as incertezas que tenho.

 

Este blog vai voltar à vida por que eu ainda tenho muito que viver, e devanear. Mas às vezes ele vai morrer um pouquinho, simplesmente por que estou vivendo, pro bem ou pro mal.



Escrito por Renan Peneluppi às 02h43
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Devaneios Ciclisticos



Escrito por Renan Peneluppi às 21h32
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Vida Shuffle

Ao longo dos anos notei que as melhores pessoas que conheci, as melhores mulheres, as melhores coisas e viagens sempre vieram do acaso. Inclusive as poucas paixões correspondidas. Sempre que planejei demais, fiz planos e passei noites em claro imaginando em meus lôbregos devaneios o diversos futuros possíveis que viriam de meus planos as coisas simplesmente não saíram conforme esperado, e eu acabei por me decepcionar, principalmente com as mulheres.

Foi por acaso que conheci minhas namoradas, foi sem qualquer planejamento que as beijei pela primeira vez, até para mim esses beijos foram uma surpresa. Foi por acaso que voltei a pedalar, e foi por outro acaso que conheci a bicicletada, e assim voltei a fazer algo que hora me dá picos de adrenalina, hora me acalma e que sempre me faz muito feliz, me faz esquecer de minhas decepções, ou no mínimo me ajuda a pensar melhor sobre elas. Nesta noite foi pedalando pela Av. Paulista, indo e voltando algumas vezes, de madrugada sob uma chuva fina que eu pensei em tudo que estou aqui a escrever. E eu não planejei fazer isso hoje, o plano sim girava em torno de uma garota, foi minuciosamente pensado durante toda a semana, e falhou, e eu me decepcionei, e resolvi sair pedalando por aí, e acabou que foi uma ótima noite, apesar de tudo. Não que eu estivesse apaixonado, definitivamente não estava, mas foi de qualquer forma mais uma frustração, as mulheres sempre são.

E foi pedalando pela paulista, sentindo a brisa no rosto e escutando musicas no modo shuffle que eu pensei que seria muito legal viver do acaso. Encher uma mochila com roupas, vender as poucas coisas que tenho, pedir demissão e sair pedalando por aí, sem destino, sem metas, sem decepções. Deixar a barba crescer, conhecer a América latina talvez, pedalar até o México, isso tudo realmente me parece bastante factível, mas requer um desapego de tudo, material ou não, que eu simplesmente não tenho.

Então fico aqui, me contento com pequenas pedaladas solitárias na madrugada da paulicéia, faço planos que nunca ponho em prática e crio expectativas que me trazem frustrações.

Me divirto a descobrir caminhos novos por aqui mesmo, aprecio as artes urbanas, as intervenções que de dentro de um carro eu jamais notaria, os desenhos no muros, os grafites, as vitrines das galerias de arte, observo as poucas pessoas sentadas na mesas de bares e cafés, e isso tudo ao menos me acalma. Descobri fazendo essas coisas que o acaso ao contrario do cupido está ao meu lado, adotei o modo shuffle no Ipod, escutar musicas em uma seqüência aleatória tem tudo haver com o acaso, e este sempre escolhe as musicas certas para os momentos certos, pra os trechos e trajetos certos, musicas que eu nem lembrava que tinha tocam em momentos bastante oportunos. Ontem por exemplo voltava pra casa umas 2 e tanto da manhã pelo Dr. Arnaldo, no final da avenida eu via aquela antena da TV Cultura e ao lado dela a Lua, mas não simplesmente a lua era A LUA, o céu estava limpo após uma leve chuva, até estrelas eram visíveis, coisa rara nesta cidade de tantas luzes artificiais, a lua cheia linda, chegava até a ofuscar meus olhos pouco acostumados com a Luz, e justamente neste momento começou a tocar no shuffle a musica “Bella Luna”do Jason Mraz, eu relaxei, soltei o guidão e pedalei lentamente observando a linda lua e curtindo a musica e o que eu mais gosto de tudo isso, que é o vento no rosto, até fechei os olhos por alguns segundos, só os abri novamente pois queria ver a lua e não pretendia estragar tudo aquilo com um capote.

Agora eu quero viver do acaso, o acaso só traz coisas boas, e eu preciso de mais coisas boas na minha vida. Quero viver a vida no modo shuffle, e se, por acaso, a musica não estiver de acordo, basta apertar next, e seguir pedalando feliz.

Ah, e também acabei de definir os dois pré-requisitos de uma mulher para mim: Pedalar, claro, e abrir saches de ketchup, mas isso não tem absolutamente nada haver contudo que escrevi.



Escrito por Renan Peneluppi às 04h34
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Uma ótima semana para as bicicletas

            A semana chega ao fim e este post é pra relatar o prazer de se pedalar em São Paulo, apesar de tudo.

 

 

            Sexta Feira passada, dia 6 de Março, eu sai de casa como minha bicicleta rumo ao trabalho por volta das 17hrs, como faço todos os dias, segui pela Heitor Penteado sentido Consolação. Pedalei sem muitas surpresas até a ponte que passa sobre a Av. Sumaré, que diga-se, é o final de uma boa subida. Até aquele ponto o transito parecia “Normal” se é que isso é possível em São Paulo, mas quando terminei a subida tive a visão do paraíso, pelo menos pra mim, que grande sensação ver o transito completamente travado, nenhum carro saia do lugar e eu com minha Daisy, (é o nome da minha bike), pedalando calmamente ouvindo a trilha sonora do filme “Into the Wild” abri um largo sorriso ao ver o corredor entre os carros a minha disposição. Passei pedalando lentamente, abrindo caminho entre os carros, rindo de tudo aquilo e vendo a cara de ódio dos motoristas presos em suas maquinas poluidoras. Tudo corria bem até no semáforo eu parei e uma senhora gritou “Sai da rua, você ta atrapalhando o transito”. Eu quase me cago de rir neh! Fiz questão de encostar ao lado dela e argumentar, apontei para a frente, mostrando o transito travado e perguntei: “A senhora realmente acha que sou eu e não todos esses carros parados a frente os responsáveis pelo péssimo final de tarde que a senhora está tendo?”. A senhora de boca aberta ficou muda, sinal abriu e eu segui. Levei os mesmos vinte minutos que levo até o trabalho diariamente e ela ficou lá cheirando fumaça.  Fiz questão de ir assobiando “Don’t worry be happy” por entre os carros, só pra mostrar a quem pudesse o precioso tempo perdido por essas pessoas no transito.

 

            Hoje, quinta feira 12 de Março eu tava de folga e aproveitei pra ir até uma BikeShop para fazer umas mudanças na bike. Seguindo o conselho e exemplo do Aylons eu coloquei um Pneu mais adequado para o asfalto, bagageiro e pára-lama ( com ou sem tracinho? E eu já odiava gramática antes da mudança). Pois em, de fato a bike ficou mais “leve”e ágil no asfalto, valeu a pena. Subi a Bela Cintra e entrei na Paulista por volta das 20hrs, com os pneus originais da bike pendurados no pescoço já que não posso dobrá-los. Atravessei a Rua da Consoloçao para pegar o viaduto e seguir o caminho da roça. Mais uma vez meu coração se encheu de alegria, estomago até gelou e eu abri meu lardo e irritante sorriso. O transito estava parado e um corredor se colocava a minha frente, eu louco pra pegar a câmera e filmar a cena, mas já tava difícil o suficiente pedalar com dois pneus no pescoço. Passei mais uma vez pedalando alegremente, e calmamente, por entre motoristas horrorizados, abismados em me ver no meio dos carros, andando mais rápido que eles. Dessa vez prestei a atenção na reação das pessoas: As pessoas nos pontos de ônibus me olhavam com um ar de inveja, os motoristas pareciam estar pensando que deviam sair de bike.

 

            Não é que eu me divirta com a desgraça alheia, mas pedalar assim é prazeroso, prova a eficácia da magrela a quem mais quero prová-la, a motoristas que insistem em dirigir em horário de pico, muitos para fazer o mesmo trajeto que eu. A total ausencia de acidentes, semafaros quebrados ou qualquer outra desculpa prova que a culpa do transito é do excesso de carros. Além disso, me sinto mais seguro entre os carros parados, é como uma ciclovia particular e não tenho que me preocupar com carros em alta velocidade vindo pra cima de mim. Sim eu luto e protesto para que um dia as pessoas possam sair do lugar nesta cidade, e isso será maravilhoso, mas vou sentir saudade de dias como esses.

            Foi uma boa semana para bicicletas, neste sábado tem o World Naked Bike Ride e eu vou! Então você aí parado, vem pedalar pelado. Por uma cidade mais humana.

 

P.S: Se a minha mãe perguntar ninguém sabe que eu fui, se eu for preso conto com a ajuda de algum amigo advogado, putz... eu não tenho amigo advogado......



Escrito por Renan Peneluppi às 05h05
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Nas redondezas de um vilarejo no interior do Rio Grande do Sul vivia um senhor a quem todos na cidade se referiam como Seu Antonio. Seu Antonio era um senhor simpático, cerca de oitenta anos, cabelos bem brancos que tentavam esconder sua calvície, olhos verdes, andava sempre de barba bem feita e tomava pelo menos uma taça de vinho por dia. Gostava de se vestir muito bem, carregava sempre consigo uma bengala, por mais que não precisasse dela, e não saia de casa sem chapéu, do tipo gangster dos anos 30, era um senhor um tanto sedutor diziam.

            Seu Antonio cresceu e viveu sempre na mesma casa. Tratava-se, na verdade, de uma pequena vinícola, que pertenceu a seus avos e a qual ele ajudou a desenvolver e tornar o vinho um dos mais disputados do país, uma produção pequena, mas que lhe rendia o suficiente para levar uma vida confortável. Era um lugar lindo, cercado de araucárias e montanhas, a casa principal ficava no ponto mais alto do terreno e o quarto possuía uma sacada que permitia a Seu Antonio apreciar a obra de sua vida a cada manhã.

            Esse homem de vida invejável tinha ainda outra paixão, sua bicicleta. Costumava pedalar até a cidade todos os dias quando era mais jovem, mas os filhos o convenceram a se acalmar conforme sua idade aumentava, ainda assim ele se recordava de suas aventuras sobre duas rodas diariamente, e lembrar-se era, para ele, quase como as reviver.

            Nas férias os filhos costumavam levar os netos para o sítio e passavam alguns dias em sua companhia. Seu Antonio gostava muito dessa época, era raro ter companhia em casa além dos empregados, as noites eram muito solitárias desde a morte da esposa. No ultimo dia de uma dessas temporadas o filho convidou a todos para jantarem em um restaurante na cidade. Nesta noite Seu Antonio conheceu Dona Sara. Era uma mulher alta magra, de cabelos loiros e sorriso bonito, do tipo forte e independente, do tipo que não se deixa seduzir, era moderna e usava um vestido preto, exibindo as suas belas pernas, era uma jovem senhora, muito bem conservada e Seu Antonio notara isso.

            Ela era a dona do restaurante, uma senhora simpática, alegre, cozinheira de mão cheia. Seu Antonio apaixonou-se, assim, a primeira vista. Sentiu algo que não sentia há anos, um aperto no peito, os estomago gelando, o rosto quente, os olhos incontroláveis sempre a procurar por ela. Aproveitou a ocasião e puxou conversa, descobriu que era solteira e nem se importou muito com a diferença de idade, sim, ela era vinte anos mais nova. Pediu a Dona Sara seu telefone, perguntou se poderia ligar um dia, quando seus filhos já não estivessem por perto, mas Dona Sara não era mulher fácil, foi ela quem pegou o telefone de Seu Antonio e disse que ligaria quando quisesse, se quisesse.

            Quatro dias depois Seu Antonio estava sentado na varanda fazendo a contabilidade do mês em um final de tarde quente, sem vento, de céu alaranjado e escutando uma antiga musica que costumava dançar nos bailes de sua juventude. O ar parado daquela tarde era confortante, a temperatura era agradável e ele degustava uma garrafa da sua mais recente produção, os taninos lhe diziam que era uma boa safra, mas ainda precisava amadurecer, mais alguns anos, talvez uns cinco, e seria um dos melhores vinhos já produzido por ele, talvez ganhasse algum premio daquelas revistas especializadas, e por mais que jamais as lesse, era sempre bom para os negócios.

            Foi nesta tarde que pensando no jantar Seu Antonio decidiu que não esperaria mais por um telefonema de Dona Sarah, decidiu que naquela noite jantariam juntos. Levantou-se, guardou suas coisas, escolheu uma roupa bastante elegante e uma bengala a altura, tomou um belo banho, fez a barba e o bigode, passou seu melhor e mais caro perfume e escolheu o melhor chapéu. Ao passar pela cozinha apanhou uma garrafa de vinho e as chaves do carro, uma antiga Mercedes que ele conservava original. Ao dar a partida ouviu um estouro e então após poucos segundos de funcionamento o motor parou, e não ligou mais, por nada no mundo. Seu Antonio abriu o capo e mexeu lá e cá, mas não importava o que tentasse o carro não ligava. Já um tanto irritado chutou a roda do carro e apanhou seu celular, ligou para um antigo amigo mecânico, o único a quem confiava seu belo e antigo veiculo. O amigo se desculpou e disse que só poderia passar pelo sitio na manhã seguinte. Frustrado com a impossibilidade de ver Dona Sarah ainda naquela noite Seu Antonio esquentou o resto do almoço no micro-ondas e passou o resto da noite com um aperto no peito. Aquela noite foi bastante fria, ele acendeu a lareira e após jantar sentou-se perto do fogo para ler um livro, já era tarde, e cada página de leitura era intercalada pelo ronco do velho. Foi por volta desta hora que o telefone tocou e acordou Seu Antonio, era Dona Sarah, a desculpar-se por demorar tanto a ligar. Perguntou se ele já estava dormindo e prontamente, ainda de cara amassada ele respondeu que não, que estava a ler. Dona Sarah comentou sobre a invasão dos turistas na cidade e o quanto andava ocupada com o restaurante nos últimos dias, Seu Antonio perguntou se poderiam jantar juntos na próxima noite, e ela aceitou prontamente. Naquela noite ele mal dormiu, ficou horas acordado na cama, rolando para lá e para cá, ansioso, como um adolescente que está prestes e pedir a mão de sua primeira namorada e fica a planejar a melhor forma de fazê-lo.

            Acordou ainda antes do amanhecer e cansado de tentar dormir, e também muito animado, preparou seu próprio café, encheu uma caneca bem grande e saiu com ela na mão direita a caminhar por entre as videiras enquanto o dia amanhecia. Gostava dessas manhãs, geladas, mas de céu límpido, sentia o cheiro de suas árvores, da terra úmida, o orvalho escorrendo nas folhas, os pássaros acordando a cantar e suas canelas e braços tocando a ponta dos galhos úmidos. A cada gole de café pensava no encontro daquela noite, em que roupa vestir, qual vinho levar, o que dizer. Imaginava os possíveis futuros que teria aquele casal, e todas as possibilidades eram boas. Ao ver o dia já claro e os funcionários chegando pergunto-se ainda a que horas chegaria o maldito mecânico.

            Por volta do meio dia não havia sinal do mecânico, irritado Seu Antonio ligou mais uma vez para o amigo, mas antes mesmo que ele atendesse o viu entrar pelo portão com sua antiga camionete. O mecânico analisou o carro, apertou lá e cá e deu a noticia, havia um problema com rebimboca da parafuseta e teria que trocar aquela peça. Dada a raridade daquele veiculo precisaria de pelo menos uma semana para consegui-la. Seu Antonio imediatamente sentiu o peito apertar e se viu na rua, a pé, para o encontro de logo mais com Dona Sarah. Pediu ao amigo que se apressasse com o conserto do veiculo e se pôs a pensar em como faria para ir ao seu encontro. Passando apressado pela garagem esbarrou em algo coberto por uma lona e acabou derrubando o objeto, quando olhou para trás viu sua antiga bicicleta caída. Estava ali a solução para Seu Antonio.

            Encostou a magrela na parede e a analisou, ela estava em boas condições precisava apenas de um pouco de óleo e uma boa limpeza, e quanto a energia para agüentar ir a cidade pedalando, bem, há muitos anos Seu Antonio não se sentia tão disposto. Passou a tarde a trabalhar em sua bicicleta, desmontou a catraca, limpou todas as peças e a corrente, regulou os freios e amarrou a antiga cesta de palha que usava na frente, presa ao guidão, encheu os pneus com uma antiga bomba que, para sua surpresa, ainda funcionava perfeitamente, a deixou como nova. Divertiu-se muito durante o processo, sujando as mãos de graxa e relembrando como tudo aquilo funcionava. Ao final do processo de recuperação ciclística deu dois passos para trás, colocou as mãos na cintura e parou para admirar sua obra. Era linda a magrela, dessas antigas, preta, rodas com listra branca, um farol preso ao pára-lama dianteiro e uma campainha no guidão. Sentiu que aquele seria um bom dia.

continua



Escrito por Renan Peneluppi às 00h03
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Mais uma vez Seu Antonio se preparou para o jantar, o mesmo ritual da ultima noite, mas agora muito mais cuidadoso e vaidoso, caprichou no gel, com medo que o vento desmanchasse seu penteado, e vestiu uma camisa mais fina, para suar menos. Decidiu sair de casa bem mais cedo, afinal não sabia exatamente qual seria o peso dos anos de ociosidade, dos anos a mais. Vestido com seu terno de linho, camisa branca com o primeiro botão solto, trocou a gravata por um lenço vermelho, na cabeça um chapéu da mesma cor cinza do terno, com uma faixa preta, empunhando sua bengala de ponta dourada. Colocou na cesta da bicicleta sua melhor garrafa de vinho e algumas flores, na garupa prendeu a bengala. Sentou sobre a antiga bicicleta, pedalou levemente para fora da garagem, passou pelos portões e dobrou a direita, parou do lado de fora, sob uma árvore, apoiado com o pé esquerdo, e pé direito sobre o pedal, levantou a cabeça e viu no horizonte, sobre suas vinhas, um céu laranja, com poucas nuvens brancas, que encobriam a tranqüila estrada cercada de araucárias.

            Era mais uma tarde fresca, perfeita. Respirou fundo e se pôs a pedalar calmamente, assobiando uma canção que jamais ouvira. Deixou os portões abertos e pelo acostamento da pequena e sinuosa estrada seguiu, no seu ritmo, sem pressa, tomando cuidado para não cansar ou ficar suado. Ao pedalar, sentindo todas as emoções que sente um apaixonado prestes a encontrar sua amada, e sentindo também o vento no rosto, escutava o barulho singular de um transporte tão silencioso, as rodas uivando no asfalto, os pássaros cantando, as árvores e seus galhos a dançar com o vento, a cerca branca nas margens da estrada que passava lentamente, o cheiro dos campos que cortava a pedalar. Naquele instante Seu Antonio se sentiu rejuvenescido, sentiu as sensações de sua infância, sentiu que ainda era capaz de fazer aquele trajeto sobre duas rodas e ainda que era capaz de apaixonar-se mais uma vez.

            Chegou ao centro da cidade em pouco menos de vinte minutos. Tratava-se de uma cidade pequena, com traços de arquitetura alemã, calçamento de paralelepípedo, era uma cidade que se ergueu ao redor de uma grande e bem ornamentada igreja matriz. O restaurante de Dona Sara se encontrava a frente de uma pequena praça, tinha pouco mais de 40 mesas, uma área externa protegida por uma antiga e baixa grade de ferro, alguns vasos com arbustos cuidavam da privacidade dos clientes e a grande figueira da calçada filtrava os raios de sol. Naquela tarde o restaurante estava fechado, mas Dona Sarah estava do lado de dentro a cuidar da contabilidade. Seu Antonio encostou sua bicicleta na grade do restaurante, ajeitou o terno e o chapéu, pegou sua bengala, a garrafa de vinho e as flores, caminhou lentamente até a porta de vidro fechada, observando a concentrada dama, sem ainda ter sido notado, ajeitou-se uma ultima vez utilizando o reflexo no vidro da porta como espelho.. Bateu a porta e desculpou-se por estar adiantado, explicou o episódio do carro, contou, com orgulho, como ele mesmo deu um jeito na bicicleta e aproveitou para contar algumas de suas aventuras com a magrela na adolescência. Dona Sara que também tinha sua bicicleta e a utilizava para fazer os deslocamentos mais curtos do seu dia adorou as histórias e o fato de Seu Antonio ter se esforçado tanto para encontrá-la, mas não deixou isso transparecer.  Após essa rápida conversa o cavalheiro senhor convidou a dama para saírem, e caminhando se dirigiram para o restaurante em que Seu Antonio havia feito a reserva para aquela noite, distante apenas duas quadras.

            Foi uma caminhada curta, mas prazerosa. Cruzaram a praça central conversando sobre as obras do prefeito para atrair mais turistas, ela comentou sobre os filhos e netos de Seu Antonio, ele a perguntou sobre sua família, descobriu que Dona Sarah tinha apenas uma filha, que morava na capital, onde fazia faculdade, e que o marido era falecido há algum tempo. Chegaram à um restaurante simpático, muito movimentado, com casais bem mais jovens, o que agradava Seu Antonio, lhe fazia sentir mais jovem também.

            Sentaram-se em uma mesa a beira de um lago, no fundo do restaurante um pianista tocava e cantava acompanhado de um contra baixo. Cavalheiro que sempre fora Seu Antonio puxou a cadeira para a dama. Notaram então que a garrafa de vinho havia sido esquecida no restaurante de Dona Sarah. Sem importa-se muito Seu Antonio pediu um dos vinhos do cardápio e também uma entrada. Foi um jantar romântico e delicioso, não só pela comida. Falaram de coisas da vida, de coisas que tinham em comum e até de assuntos em que discordavam, riram em alguns momentos e em outros falaram sério, se abriram, os dois, sem mascaras, nem um dos dois se sentia obrigado a impressionar ao outro, como geralmente acontece nessas ocasiões.

            Foi falando sobre o crescimento da cidade como destino turístico, dos novos hotéis, das oportunidades e de como muitos enriqueceram na cidade que Seu Antonio lembrou-se de um de seus filhos, já falecido. Contou a Dona Sarah que há muito anos seu filho mais velho, chamado João, após se formar, fez uma grande viagem pela América Latina, a pé, sem um tostão no bolso. Era um jovem revoltado com o consumismo e com a ambição de seus pais, viajou por dois anos, sem jamais dar noticias.

            Seu Antonio contou que sempre se culpou pelos dois anos de ausência do filho, que realmente suas atitudes os afastaram, que ele não fora um exemplo de pai. Com lagrimas nos olhos resumiu a história de seu primogênito ao contar que um dia recebeu uma ligação da defesa civil da Amazônia, a primeira noticia de seu filho em dois anos: O corpo do garoto havia sido encontrado por madeireiros em uma cabana na mata, a causa da morte era envenenamento por ter ingerido uma folha qualquer, junto a ele diversos livros e cadernos com anotações. O irmão de Seu Antonio foi buscar o corpo e os pertences do rapaz, ele contou que alguns meses depois quando finalmente teve coragem de ler as anotações do rapaz leu algo que mudou sua forma de encarar as coisas. O rapaz escreveu em um primeiro momento “...Não mais estar aprisionado pela sociedade, andar sozinho, viver sozinho, perdido na natureza, finalmente livre...”, isso bastava para entender o que fazia o rapaz em meio a mata, sem dar notícias, sem avisar ninguém, tão longe de casa, ele queria se ver livre do mundo, livre dos pais. No entanto, a ultima anotação de seu caderno dizia o seguinte “...Não há felicidade verdadeira sozinho no mundo, a felicidade só é plena quando compartilhada...”, sabia que o filho havia morrido em solidão, mas que também o havia perdoado. A morte de João ensinara Seu Antonio a aproveitar melhor a própria vida e sua relação com as pessoas.

            Falaram então do quanto amavam os filhos, do quanto ambos se sentiam sozinhos por não os terem por perto, da perda de pessoas que amavam, de como isso se torna comum com o passar dos anos. Foi um encontro incomum, em uma noite aprenderam muito um sobre o outro, em uma noite viram que essa relação podia dar certo.

           

            Seu Antonio pagou a conta, pegou os casacos na chapelaria e voltaram os dois pelo mesmo caminho que vieram, caminhando lentamente, agora ele contava de quando era jovem e fazia aquelas aventuras de bicicleta, indo a locais inexplorados. Dona Sarah se deliciava com as histórias e comentava sobre os locais que também conhecia, que adorava a época em que tinha tempo de visitar todos aqueles lugares, que era uma mulher muito atarefada e que não tirava férias há anos. Pararam de falar por um instante, com as mãos no bolso seu Antonio olhava para o alto, para a lua que o acompanhava pelo caminho, cheia, reluzente, sua luz atravessava os galhos das arvores que se faziam apenas sombra, incapazes de oculta-la. Ele comentou que achava sua vida era bem mais interessante quando não tinha um centavo no bolso.

            Chegaram calados ao restaurante de Dona Sarah que parou a porta olhando para ele, rodando a chave nos dedos e perguntou se ainda iriam tomar aquele vinho. Seu Antonio estendeu a mao em direção a porta, para que ela entrasse na frente. Enquanto Dona Sarah pegava as tacas em uma prateleira do bar ele abria a garrafa, enquanto o fazia caminhou para a varanda do estabelecimento e sentou numa área externa, onde podia observar o céu e apreciar aquele noite agradável. Ela se sentou a seu lado, brindaram e tomaram uma taca de vinho em silencio, quando seu Antonio foi encher sua taca novamente e que voltaram a falar, e passaram mais duas horas ali, bebendo, rindo e se deliciando com a presença um do outro. Já era tarde, e Seu Antonio achou melhor voltar pra casa.

            Por mais que Dona Sarah tenha insistido para que ele pegasse um taxi ele fez questão de voltar pedalando. E aquela foi uma pedalada histórica para ele, numa noite gelada, porem agradável, de céu limpo e luar reluzente, de leve brisa e o cheiro dos vinhedos e eucaliptos se sobressaindo na noite. Pedalou respirando fundo, sentindo todas as sensações boas de uma grande noite que se aproximava do fim, de uma noite em que revivera uma paixão e encontrara outra.

            Nas próximas semanas ele voltaria a pedalar todos os dias ate o restaurante de Dona Sarah. Fosse para jantar com ela, fosse para ajuda-la nas noites mais cheias, fosse para jantar sozinho so para poder observa-la enquanto trabalhava. Seu Antonio descobriu mais uma vez nessas semanas que se seguiram a sensação de amar uma mulher sem saber ao certo por que, um amor que se revela na saudade quando a pessoa amada esta ausente e ele fecha os olhos e pode sentir sua pele, sua respiração, seu cheiro e ate seu toque. Um amor que se ressalava ainda mais quando na presença daquela mulher, quando não consegui tirar os olhos dela, quando queria toca-la a todo instante, ate mesmo no ciúme de sentia de outros olhos masculinos, do amor que se sobre sai a cada toque ou olhar..

            Foi numa tarde no começo do inverno, poucas semanas depois de iniciar seu romance que decidira voltar um pouco mais cedo para casa, pois tinha uma reunia com exportadores de seu vinho. Desculpou-se com Dona Sarah por sua partida prematura, mas era um encontro importante. Passando por uma Floricultura no caminho pra casa encomendou gérberas vermelhas para serem entregues na manha seguinte. Escreveu uma pequena nota onde ressaltava o bem que Dona Sarah fazia a ele, que tinha, graças a ela, a oportunidade de viver duas grandes paixões novamente, ela e a bicicleta.

            Montou mais uma vez em sua magrela e pegou a estrada que levaria a sua vinícola. Voltava calmamente, pelo acostamento, apreciando o céu alaranjado que tanto lhe inspirava, as cercas brancas das fazendas vizinha, os galhos de arvore balançando com o vento. Numa descida soltou o guidão e abriu os braços como se estivesse a voar, e de fato sentia que estava, naquela tarde a sensação que tinha era única, apesar do vento gelado sentia um calor que vinha de sua alma, e um prazer que lhe dizia que sua vida era ótima.

            Naquele momento, por de trás de uma colina um carro em alta velocidade fez a curva derrapando, o motorista perdeu o controle e bateu em seu Antonio, o atirando a alguns metros da bicicleta. Apavorado o motorista sequer parou para ajuda-lo e se evadiu rapidamente. Seu Antonio deitado no chão sentiu um frio repentino, e olhando para o céu azul com as nuvens alaranjadas pensou na família, nos filhos e sobre tudo em Dona Sara, sua visão se ofoscou e ali ele faleceu rapidamente.

            No dia seguinte, poucas horas após receber a noticia da morte de seu amado, bateu a porta do restaurante de Dona Sarah um entregador de flores. Ao abrir a nota da mais bela flor que jamais havia recebido leu as ultimas palavras de Seu Antonio e apesar da tristeza de perde-lo soube que ele havia morrido feliz e pleno, fazendo aquilo que mais amava e voltando da casa daquela que amava.

            Os Jornais do mundo todo publicaram a noticia como uma piada, como se fosse engraçado um senhor de idade tão avançada ir de bicicleta visitar sua namorada diariamente. Todos na cidade que entendiam o que se passava no coração daquele velho homem porem sabiam que não havia melhor forma de morrer, ele havia deixado um legado, estava fazendo uma das coisas que mais lhe davam prazer e amava uma vela mulher.

            Eu se pudesse escolher em que circunstancias morrer escolheria exatamente essas que ele vivia quando se foi.



Escrito por Renan Peneluppi às 00h03
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Em uma tarde de setembro, meia centena de ciclistas urbanos reunidos nos espaços virtuais resolveram colocar no papel algumas opiniões e análises sobre as dificuldades, conquistas e necessidades de quem usa bicicleta em São Paulo.

O texto coletivo, que cirulou por listas de email, foi assunto de chats e conversas, recebeu centenas de alterações não é uma versão conclusiva nem estática. Como disse um dos autores, talvez nunca existirá uma versão definitiva. Mas a análise e a opinião destes especialistas empíricos sobre as ruas da capital merece ser escutada.

Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizam a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, grandes exemplos de soluções criativas: Bogotá e Curitiba.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. Às leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa. “Só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana, do que acreditar que a solução dos nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também.

Nós, que também somos o trânsito:

Alberto Pellegrini
Alexandre Afonso
Alexandre Catão
Alexandre Loschiavo (Sampabiketour)
Alex Gomes ( U-Biker )
Ana Paula Cross Neumann (Aninha)
André Pasqualini (CicloBR)
Antonio Lacerda Miotto (Pedalante)
Aylons Hazzud
Ayrton Sena Santos do Nascimento
Bruno Canesi Morino
Bruno Gola
Carolina Spillari
Célia Choairy de Moraes
Chantal Bispo (Eu vou voando)
Daniel Ingo Haase (FAHRRAD)
Daniel Albuquerque
Eduardo Marques Grigoletto (CicloAtivando)
Fabrício Zuccherato (pedal-driven)
Flávio “Xavero” Coelho
Felipe Aragonez (Falanstérios)
Felipe Martins Pereira Ribeiro
Fernando Guimarães Norte
Gustavo Fonseca Meyer
Hélio Wicher Neto
João Guilherme Lacerda
José Alberto F. Monteiro
João Paulo Pedrosa (Malfadado - PT)
José Paulo Guedes (EcoUrbana)
Juliana Mateus
Laércio Luiz Muniz
Leandro Cascino Repolho
Leandro Valverdes
Lucien Constantino
Luis Sorrilha (BIGSP)
Luiz Humberto Sanches Farias
Marcelo Império Grillo
Márcia Regina de Andrade Prado
Márcio Campos
Mário Canna Pires
Matias Mignon Mickenhagen
Mathias Fingermann
Otávio Remedio
Paula Cinquetti
Polly Rosa
Renan Peneluppi

Ricardo Shiota Yasuda
Rodrigo Sampaio Primo
Ronaldo Toshio
Silvio Tambara
Thiago Benicchio (Apocalipse Motorizado)
Vado Gonçalves (cicloativismo)
Vitor Leal Pinheiro (Quintal)
Willian Cruz (Vá de Bike!)



Escrito por Renan Peneluppi às 22h21
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            Tinha dezesseis anos, magro, pálido, nervoso, o tipo de adolescente que está descobrindo algo maios dentro de si. Acordava sempre as 6 da manhã, bem, ele tinha dezesseis anos, eventualmente se atrasava, mas contava com sua mãe para ajudá-lo a despertar, nem sempre de forma delicada. Mas apesar de seus deslizes era de fato um garoto dedicado.

            Freqüentava dois colégios de realidades bem diferentes. O primeiro era um colégio particular, focado em preparar os alunos para o vestibular. Lá seus colegas nunca foram gentis com ele, sentia-se deslocado, inferior, deformado. Ali o fato de querer ser mais, ou melhor, não importava muito, ali havia outras prioridades, e o futuro não era uma, a não ser para o garoto. Era para ele o pior momento do dia. O segundo tratava-se de um curso técnico, no qual todos os seus colegas se dedicavam tanto quanto ele, e apoiavam seus esforços, todos pensando no futuro, ali sentia-se situado, tinha amigos de verdade, encontrava pessoas a quem verdadeiramente admirava e que sabia que também o admiravam. Descobriu nessa época a receita para relacionamentos duradouros, a admiração.

            Mas havia algo de estranho. Era justamente no colégio que freqüentava a noite, onde todos se importavam muito com seus futuros, que o menino só conseguia pensar no presente. Ali se sentia feliz, e não queria que o curso acabasse. Assistia às aulas da manhã pensando nas da noite, estudava a tarde toda na esperança de que as horas corressem mais rápido. Criou um ritual para ir à aula durante a noite. Este se iniciava com uma sessão de abdominais e flexões de braço, não contava, simplesmente fazia o máximo que conseguisse. Tomava um banho, perfumava-se, passava pelo menos 20 minutos arrumando seu topete, sempre bem aparado e com muito gel. Escolhia sua roupa com cuidado. Sempre ao som de uma musica que lhe agradasse. Saia de casa de bicicleta, levava cerca de 15 minutos para chegar no colégio, aproveitava o percurso sentindo o vento no rosto e fazendo planos. Era o momento do dia em que podia se sentir popular, querido, e com toda sua imaturidade preparava-se diariamente para isso.

            Após trancar sua magrela andava rapidamente para a sala de aula, ao entrar rapidamente olhava as pessoas ali, gostava muito de todos, mas sempre procurava entre elas uma garota, a garota que fazia daquelas aulas as melhores aulas que já assistiu.

            Uma loira com um sorriso perfeito, as bochechas cheias e rosadas, olhos castanhos e grandes, profundos. Usava um perfume doce, porém suave, a voz era meiga e afetuosa. Era de uma delicadeza que impressionava a todos, e o hipnotizava, a seus cabelos claros tinha preso um cordão de couro que segurava uma pena, um detalhe de sua beleza única. Carregava sempre uma pasta roxa e costumava se sentar na primeira fila. Ela era o motivo pelo qual o garoto pedalava tanto, e estudava tanto. Havia algo nela que a fazia especial. Ele já estava apaixonado e ainda sabia que tinha a admiração daquela linda garota. Todos sabiam disso, e todos os outros garotos o invejavam por isso. E justamente por saber ser invejado, ao invés de invejar como ocorria no colégio dos colegas ricos, gostava tanto da situação. A amava verdadeiramente, mas também adorava o fato de ser o centro das atenções, e sabia que boa parte disso se devia a beleza de Talyta.

            Os anos passaram e o futuro de cada um deles, principalmente o dele, os afastou. Hoje, já formado e com a vida feita ele ainda é o mesmo garoto, buscando a mesma admiração das pessoas. É um garoto que sente um aperto no peito cada vez que se recorda do rosto daquela menina, cada vez que sabe de noticias dela. E este é um aperto que só quem já se apaixonou sente, e o sente por que nunca a esqueceu e deseja a cada dia voltar a apaixonar-se por alguém que o admire. Aprendeu que apaixonar-se por quem não o admira só causa dor. Aquela garota da pena nos cabelos foi um dos poucos amores verdadeiros que sentiu, e ele sabe que a perdeu, pois se iludiu com a admiração dos outros e esqueceu da admiração dela por ele e dele por ela. Daquela época lhe restam as lembranças, o aperto no peito, e a vontade de reencontrá-la e desculpar-se por ser tão imaturo então. Restou ainda sua bicicleta, que pedala todos os dias, lembrando de tudo isso, fazendo novos planos e buscando reencontra-la.

 



Escrito por Renan Peneluppi às 05h23
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PEDALANDO

            Devaneios.com anda meio morto, paradão, um tanto ocioso. O problema parecia ser a vida em São Paulo, o transito, a poluição. As idéias já não fluíam como antes, nem as atitudes, nem as viagens. A vida ficou cara, a faculdade acabou as pessoas se distanciaram. Os amores impossíveis deixaram de acontecer, a atenção ao detalhe se perdeu. Quando me propus a trabalhar muito, muito mesmo, e esquecer de tudo, e todas, que atormentavam as minhas noites insones, não sabia o mal que estava fazendo a mim mesmo. Em pouco mais de seis meses outros tormentos, mais sérios e tristes que os anteriores, voltaram a tirar meu sono. De tudo isso saiu uma coisa boa, a vontade de acalmar o ritmo de minha vida, de fazer as coisas que me faziam feliz na adolescência. Havia me cansado de ficar parado dentro do carro cheirando fumaça e ouvindo buzina de motoboy, sentindo que desperdiçava um precioso tempo d eminha vida. Segui uma sugestão da minha mãe e redescobri a já velhinha bicicleta que tava jogada no quintal. Dei uma limpada nela, troquei uma peça ou outra, engraxei, tirei alguns quilos de ferrugem, nada demais, só coloquei a magrela pra andar de novo.

 

            Bastou a primeira pedalada para me lembrar porque gostava tanto dela na adolescência, ainda no interior do estado, quando eu fazia tudo com ela, escola, trabalho, clube e até a namorada eu carregava nela. Mas descobri também que o interior era muito mais amigo da bike que a capital paulistana. A capital foi feita pros carros, os motoristas não estão acostumados com a bike e poucos respeitam as respeitam. Confesso que fiquei com medo no começo, até passei a usar capacete, coisa que nunca havia feito antes.

 

            Lembro-me que na adolescência, em Pindamonhangaba, pedalar era normal, natural, todo mundo lá usa bike pra tudo. E lá tem ciclovia, ciclo faixa e motoristas mais acostumados com os ciclistas. Qualquer lojinha lá tem lugar adequado para parar a bike, e geralmente esse lugar é a antiga vaga de carro, bem na frente da loja. O transito da cidade não é a melhor coisa do mundo por isso, mas não fossem as bicicletas a cidade estaria parada, com suas ruas antigas e estreitas.

 

            Mas mesmo na tumultuada São Paulo é uma delicia pedalar, logo o vento no rosto me lembra das minhas técnicas aprendidas à base de muitos tombos ainda na adolescência. Mas as buzinas, a fumaça, os motores e os ônibus me jogando em cima da calçada logo me colocam no mundo real, estou em Sampa, e aqui o pedal é insano. Aprendo rapidinho que a bike é mais rápida, bem mais rápida que meu antigo transporte a combustão e poluente, mas que para sobreviver tenho que pedalar entre os carros. Com transito parado é uma delicia, chega a ser divertido passar por entre os motoristas estressados que levarão muito mais tempo que eu para andar as mesmas distancias. Mas quando esses mesmos motoristas se põem a me xingar e me mandar pra calçada eu me ponho a pensar nos meus direitos, e também nos meus deveres. Por onde posso pedalar afinal?

 

            Essa duvida me leva a pesquisar. Leio o código de transito brasileiro, e como já desconfiava descubro que a preferência é sempre do ciclista em relação aos carros, e que lugar de bike é na rua sim, não na calçada. Com alguns dias de pedal diário, pra fazer tudo, decido que a magrela voltará a me carregar sempre, e assim me ponho a sonhar com uma bike melhor. E foi assim pesquisando sobre equipamentos, bikes, legislação, lugares para parar a bike, o melhor tipo de bike para o uso urbano, que eu descobri a Bicicletada e uns blogs novos.

 

            A massa critica, que até então pra mim era tema de física no vestibular, se pos a minha frente, conheci um grupo, e que grupo, de pessoas que gritam, literalmente, pelo espaço dos ciclistas no transito. Encontravam-se sempre nas ultimas sextas-feiras de cada mês. Imediatamente eu quis me juntar a esse povo e por a minha voz também a gritar pelo meu espaço. Infelizmente o trabalho sempre se colocava entre mim e a Bicicletada e mês após mês eu ficava na vontade. Enquanto isso minha magrela era modificada, adequada a São Paulo, eu descobria outros caminhos, evitava o transito e já a utilizava diariamente. Carro já virou peça de museu. Comecei a me interessar por temas relacionados ao transporte publico e ler mais sobre o assunto, e continuo a aprender muito.

 

            Aí veio o dia 29 de agosto de 2008 e eu consegui participar da minha primeira Bicicletada, depois de 6 meses pedalando na Capital. Apaixonado por ela eu já estava, mas participar de fato me fez ver mais que a mobilidade e política por trás de uma bike. Me fez lembrar de outra situação da adolescência: A volta da aula - eu e quatro dos meus grandes amigos, pedalando calmamente e batendo papo, fortalecendo nossos laços de amizade em cima de uma magrela. Na Bicicletada fiz mais amigos, e mais uma vez bati papo sobre a bike, falamos de tudo, um monte de gente diferente que eu jamais havia visto antes e que me acolheu de imediato. Lembrei que a bike é mais humana, que nos permite ser mais humano. Permite-nos uma conversa com o jornaleiro, nos permite o contato mais próximo, permite que passemos por uma São Paulo mais bonita, mais devagar, notando as paisagens, a arquitetura e principalmente as pessoas. E mesmo mais devagar e mais calmamente ainda chego mais cedo ao trabalho, gasto menos dinheiro e acreditem trabalho com muito mais disposição e alegria, enquanto motoristas estressados se matam no transito.

 

Por isso o Devaneios.com saiu do ócio, agora meus devaneios são sobre duas rodas, em silencio, com vento na cara e sorriso no rosto, e não mais dentro de um ônibus ou metro lotado e fedido. Já tenho muitas histórias para postar, mas achei que o ressurgimento do blog devia ser contado através do ressurgimento de um ciclista.



Escrito por Renan Peneluppi às 01h26
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O ultimo post deixa de valer a partir de agora. Voltei a vida. E como voltei! Agora nao posto mais mesmo, quer dizer, quero postar, mas nao há mais tempo. MEu nome é trabalho. E a vida anda incerta aqui na avenida paulista. Agora sou da noite, as madrugas sao minhas, e de bicicleta. Assim que me sobrar um minuto eu conto mais. Saibam postarei logo.

Escrito por Renan Peneluppi às 03h25
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Já disseram alguns de meus colegas blogueiros que quando não se atualiza mais seu blog tão constantemente é por que estamos vivendo mais, e, portanto, temos menos tempo para tal tarefa. Eu não atualizo isso aqui há um tempão mas a razão é outra.

            Não atualizo mais porque deixei de viver, parei, quase nada me empolga, ninguém mais. A única coisa boa dos últimos tempos foi aprender a atirar, e isso devia é dar medo.

            Puts... I must get a life.



Escrito por Renan Peneluppi às 01h40
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Cruzeiro do Sul

 Vê-se ao longe um vulto cambaleante que chuta areia e água ao caminhar na orla escura e deserta de uma pequena praia. Vem ali uma pobre alma, segurando uma garrafa praticamente vazia de Pinot Noir,  a qual não devia ser a primeira, e podia ser a última.

Vê-se ainda mais ao longe um segundo vulto, este o de uma moça bonita, cabelos longos e franja sobre os olhos, o nariz levemente empinado, bonito, e seu sorriso pertubardor, sempre, se distancia, anda em outra direção. Leva seu sorriso e sua beleza, mas deixa com o vulto embriagado toda sua inpiração, dor, amargor. Na verdade, não deixa nada.

O bebado, continua se esforçando para ficar de pé, lutando contra os efeitos do álcool e contra sua vontade de se jogar na água gelada e deixar-se afundar no seu próprio mar de lágrimas. Levanta a garrafa, olha para tráz, ameaça gritar alguma coisa, mas já sem coragem de ouvir um não se cala e se joga deitado na areia.

A noite é limpa, calma, sem ventos ou nuvens, perfeita para observar as constelações, como nota o embriagado desiludido. E ali, olhando as incertezas das constelações se põe a pensar. Decide que é hora de mudar, de ir mais além, de buscar novos caminhos, novas estrelas. Se os corpos celestes estão prenhes de incerteza, só resta confiar na escuridão, nas regiões desertas do céu. Que pode ser mais instável do que nada? Contudo, não se pode, nem mesmo do nada, estar cem por cento seguro.

Vê uma clareira no firmamento, uma brecha oca e negra, lá fixa o olhar como que se projetando nela. E eis que também ali no meio toma forma um grãozinho claro qualquer ou uma pequenina mancha ou sarda. É ali que decide por se concentrar, quem sabe se abrir mais os olhos, ou se achar um local mais propicio para observar as estrelas? como uma costa mais escura, mais ao norte? Quem sabe?

Chega de concentrar-se na utópica Cruzeiro do Sul, é hora de dar uma chance a Estrela Polar, é hora de descobrir novas constelações, hora de seguir sentido buracos mais escuros no firmamento.

Se levanta, coloca um pequeno pedaço de papel dentro da garrafa e a atira no mar. Com as mãos nos bolsos, queixo levantado, respira fundo, e cabaleando some novamente na escuridão. Dizem, que só será visto quando chegar finalmente a todas as constelações.



Escrito por Renan Peneluppi às 03h38
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Outros Sonhos

Se pudesse escolher, escolheria por não amar.

 

            Não há dor pior que a de não ser correspondido quando se ama. E aparentemente seu destino era esse, amar amores impossíveis, se iludir e se fuder. Aí se fodia também porque não sabia esquecer, não sabia deixar de lado e ser superficial.

Não sabia se afastar e não buscar noticias, saber com quem ela estava e porque, nem sabia não se questionar porque não era com ele que ela estava, parecia até que era viciado neste tipo de dor.

 

            Se pudesse escolher viveria isolado numa ilha, sei lá, longe de tudo e de todos. Um lugar onde a vida seria simples e os sentimentos poucos.

 

            Se pudesse desejar, no entanto, desejaria estar em um lugar isolado do mundo longe de tudo e de todos, menos dela. Desejaria estar neste lugar com ela para sempre. Um lugar onde dormiriam abraçados, tocaria sua cintura e velaria seu sono. Enquanto ela dormia a observaria deitado a seu lado, tocaria seu rosto levemente com a ponta dos dedos, seu nariz, sobrancelha, bochechas e lábios.

 

            Faria massagens por todo seu corpo, e sonhava receber tantas outras de volta. Sempre que ela lhe mostrasse um sorriso pararia por um instante a observá-la, guardaria cada uma das expressões de seu rosto como um retrato em sua memória.

 

            Desejaria suas mãos sobre as suas, e seu corpo sobre sua cama. Sempre que ela se deitasse sua mão apoiaria sua cabeça, e seus corpos colados se aqueceriam. Seus pedidos seriam como ordens para ele, o impossível não existiria, a dor seria lenda de outros mundos.

 

            Aquele aperto no peito, aquele ciúme, a inveja, a raiva contra si mesmo, a insônia, os pensamentos, nada disso existiria se ele pudesse escolher. Se pudesse escolher estaria satisfeito só com o trabalho e com a própria companhia.

 

            Mas desejava sim que suas fantasias se realizassem, que seus sonhos fossem reais, que seu amor fosse correspondido.

 

            Como estes desejos pareciam um tanto improváveis escolheria jamais amar novamente. Via-se obrigado a escolher uma amizade sobre uma paixão, pois esta parecia ser a única forma de mantê-la por perto, de ainda ter algum contato.

 

            Sabia que afastar-se era sem duvida a melhor forma de superar aqueles desejos e sonhos, mas não queria fazê-lo, se não a pudesse ter do jeito que ele queria preferia escolher ao menos a ter de outra forma, fosse como amiga, e assim passaria outros tantos anos a sonhar e desejar o impossível, sempre com alguma gota de esperança e um aperto no peito que aliviava sempre que ela sorria para ele, segurava sua mão ou simplesmente estivesse por perto. Um aperto no peito que voltava mais forte, agudo e doloroso, quando ela ia embora novamente, e ele ficava mais uma vez sem seu perfume, seus cabelos ou sua pele. Restava-lhe, sempre, apenas as memórias dos momentos que lembra serem bons, que só faziam aumentar a dor.

 

            Não sabia se superaria, sentia que não, já nem sabia o que fazer com suas dores.



Escrito por Renan Peneluppi às 23h06
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Lagoa de Aruá

            Naquele de verão o pequeno Augusto foi passar as férias com sua família no litoral. Sua mãe fez questão de obrigá-lo a usar uma sunga vermelha, um pouco menor que o tamanho real do coitado do garoto. Talvez isso alimentasse a ilusão daquela mãe insensata de que a criança estava dentro do seu peso ideal, que era muito saudável, não gordo. Mas de todas as crianças daquela praia Augusto era sem duvida o mais gordinho, e sabia disso. E isso apenas fazia daquela maldita sunga algo ainda mais ridículo.

Mas não parava por aí, ele já tinha sua auto-estima bastante abalada pelos apelidos na escola, e à seu ver, estava mais ridículo ainda, ele seria a atração principal das outras crianças se fosse visto daquele jeito. Por isso tomou coragem para adentrar o mar revolto e gelado, decidiu que passaria o dia sem sair da água, para que sua sunga não fosse vista de modo algum, por ninguém.

E dentro do mar, se escondendo entre uma onda e outra, além de fazer um xixizinho, Augusto ficava de olho na orla da praia, atento na localização dos outros banhistas, evitando passar sequer próximo deles. Quando via um grupo se aproximando logo nadava na direção oposta, quando se via encurralado por um grupo de banhistas de cada lado nadava para o fundo e os contornava.

 Foi então que notou uma garotinha em pé na areia, a observá-lo, ruiva, devia ter uns 5 anos e usava apenas a parte de baixo do seu biquíni, também vermelho, no mesmo exato tom de cor que a sunga de Augusto. Logo sentiu certa empatia pela situação da menina, a pobrezinha devia também estar morrendo de vergonha do destino imposto por seus pais, e era tão linda, não merecia tal fardo.

Augusto, que desde muito novo era muito solicito com o sexo oposto, logo decidiu ir até ela e convidá-la para se esconder por entre as ondas com ele. Trocaram olhares as duas vítimas da falta de noção dos pais daquela praia. Ele ia chegando perto dela, já com água pela cintura, e ela o aguardava, molhando apenas os pés na água. Quando a avistou e estava a tomar coragem de acenar sentiu a correnteza puxando-o para trás, antes que pudesse olhar uma onda enorme quebrou sobre a cabeça do menino, e assim Augusto chegou à orla, rolando naquela onda, engolindo areia e água salgada, até que parou deitado e atordoado próximo aos pés da menina, que assustada correu para a barraca de seus pais.

Prontamente a mãe de Augusto correu para o resgate, o lavou rapidamente, tirou um pouco da areia de sua sunga vermelha e encheu uma garrafa com a água do mar. Já na barraca tirou a sunga vermelha e deixou a nudez de Augusto exposta para toda a praia, naquele momento o garoto nada mais queria que sua sunga apertada de volta. Por sorte, após despejar água sobre o garoto, sua mãe o vestiu com uma bermuda de nylon e uma camiseta listrada, como se usava na época.

Aliviado Augusto decidiu que precisava logo tomar uma atitude quanto a aquela menina bonita, tomou coragem e caminhou decidido em sua direção. A garota que agora estava a terminar de tomar um sorvete estava parada sob o sol, ao lado dos pais. Augusto, agora em trajes mais apresentáveis, se aproximou e como um admirador que se declara a sua amada disse: “Quer brincar?”. “Castelos de areia” ela respondeu

E se foram os dois pombinhos para a beira da praia, ele construindo seu forte indígena com uma muralha para se defender do ataque da água, e ela a levantar seu castelo de Cinderela, com diferentes torres e até uma sacada. Discutiam as técnicas de construção de castelo de cada um, aconselhavam-se e quando a parte técnica de seus projetos estava finalmente pronta começaram a pular sobre os castelos, caindo e rolando na areia. Sujos de areia dos pés a cabeça chutavam água um no outro e riam uma gargalhada infantil, gostosa e inocente, como augusto tinha saudade de ainda poder fazer. Foi quando os pais da menina vieram buscá-la e ordenaram que ela se despedisse de seu novo amiguinho. A levaram pelos braços, ela chorava e acenava um adeus triste para Augusto.

Já no carro, de volta pra casa, naquela mesma tarde, o pai do pequeno Augusto notou que seu filho estava um tanto quieto, e preocupado tentou consolá-lo. Disse que não se preocupasse que sabia que sentiria saudade, mas que eles poderiam brincar juntos novamente nas próximas férias.

E então as próximas férias vieram, Augusto procurou e procurou pelo biquíni e os cabelos vermelhos, mas não encontrou nada. O mesmo ocorreu nas próximas férias, e em todas as outras que se sucederam. Jamais a viu novamente.

E lá estava Augusto, aos 32 anos de idade ainda sonhava com aquele dia e aquela menina. E esses 25 anos de peito apertado e saudade ensinaram a Augusto que algumas pessoas passam por nossas vidas de forma intensa e rápida, como cometas, incendeiam-nos por um instante. Ficamos então a desejar reviver aqueles momentos, e a rever aquelas pessoas, ficamos a olhar para o céu em busca daqueles mesmos cometas. Então um dia notamos que há um lugar em nossas memórias, um pedacinho no nosso céu, em que podemos rever aqueles cometa e aqueles momentos sempre que desejarmos.



Escrito por Renan Peneluppi às 23h51
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Trabalhando no primeiro texto comico desse lugar deprimente..Breve em cartaz!



Escrito por Renan Peneluppi às 01h17
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